Elisabelferriche's Blog

março 23, 2010

“Os médicos são corporativos e não cumprem horário”

Filed under: Entrevista — elisabelferriche @ 11:08 pm
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O DF tem excelente índice de cobertura vacinal, hospitais em quantidade suficiente, mas há ainda falta de médicos.

 Dr. Joaquim – Há um déficit grande de médicos, agentes administrativos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, cujo contingente não cresceu no mesmo ritmo do crescimento populacional. Estamos fazendo um levantamento para saber o real déficit e subsidiar os próximos concursos.

 Serão abertas quantas vagas?

 Dr. Joaquim – Solicitamos 800 vagas, mas o TCDF reduziu para 400. Vamos contratar até junho, para não sermos atingidos pela Lei Eleitoral. Iremos privilegiar as especialidades de pediatria, clínica médica, anestesia e ginecologia e obstetrícia, onde há maior déficit, como Taguatinga, Ceilândia, Samambaia e Gama. Paralelo a isso chamamos mais de 200 médicos que passaram nos últimos concursos.

 Além da contratação de mais médicos, a SES tem uma política de melhoria da infra-estrutura dos hospitais?

 Dr. Joaquim – Existem dois problemas diferentes. Um é de infra-estrutura predial, como ocorrem em Sobradinho e Taguatinga, que precisam de nova subestação de energia, cuja licitação já foi solicitada. O outro problema é de equipamentos, que já há vários pedidos de aquisição.

 No Hospital de Base os oftalmologistas para trabalhar precisam levar seu próprio equipamento. O senhor tem conhecimento disso?

 Dr. Joaquim – Não estou sabendo. Normalmente esse colega não tem compromisso com a SES. Porque se ele levasse o problema à direção e ela comunicasse ao secretário, tomaríamos providências. É evidente que alguma coisa falta, porque a Secretaria e muito grande e a estrutura pesada.

 Já que o senhor admite que a estrutura é pesada, o que fazer para agilizar e acabar com a morosidade para a solução dos problemas?

 Dr. Joaquim – Em primeiro lugar é preciso fazer com que o médico seja menos corporativo e vista a camisa da Secretaria.

 Então a culpa é do médico?

 Dr. Joaquim – Nem sempre. Mas porque o médico que trabalha na Secretaria 20, 40 horas, não cumpre a carga horária? É claro que não são todos.

 E porque o gestor não cobra o cumprimento do horário?

 Dr. Joaquim – Muitas vezes o colega diretor também é corporativo.

 E porque o secretário não muda o diretor e não endurece com os médicos irresponsáveis?

 Dr. Joaquim – Se chegar a meu conhecimento que isto está acontecendo, eu tiro o diretor, seja quem for. A falha é de muitos anos e os erros são sempre os mesmos. Quando a gente endurece, o primeiro a defender o médico é o sindicato.

 Nos três meses em que o senhor foi diretor do HRT, puniu algum médico que chegou atrasado?

 Dr. Joaquim – Não cheguei a punir, mas chamei para conversar e não aconteceu de novo. Mas sei que isso acontece. Agora, quando eu tenho um médico, um diretor comprometido, que sai do gabinete para ver como o médico atende à população, eu defendo o médico que também é meu colega.

 Qual a orientação que o senhor dá para os plantonistas que não tem substitutos na escala de serviço, rotineiramente?

 Dr. Joaquim – Isso acontece porque há médicos que só querem trabalhar em um determinado horário. Aí faltam médicos pela manhã e sobram à noite.

 Mas quem faz a escala não é o chefe da clínica? Porque ele não divide melhor o horário do plantão?

 Dr. Joaquim – Porque a senhora não pergunta isso a ele e vê se ele pode falar a verdade? Também há o problema da falta de médicos.

 E aí o que acontece?

 Dr. Joaquim – O chefe tem que se virar. Com este concurso que vamos realizar, a prioridade será dada a atenção básica. Vamos reforçar as equipes do (PSF) Programa Saúde da Família e integrar o PSF com os postos de saúde em locais mais necessitados e, com isso, reduzir o atendimento nos pontos socorros dos hospitais e, paralelo faremos um trabalho de convencimento à população para que procure os centros de saúde.

 Também serão contratados anestesistas?

 Dr. Joaquim – Serão 80 vagas. Agora, o problema da anestesia está sendo criado pela própria categoria que não quer trabalhar na SES. Eles acabarão sendo os responsáveis pela terceirização de médicos nessa especialidade. O salário não é bom, mas já melhorou bastante com o acordo feito com o sindicato os médicos passaram a receber R$ 13 mil por 40 horas.

 Mas os médicos reclamam mais das condições de trabalho. O ano passado 188 médicos pediram demissão. O senhor não acha este número alto?

 Dr. Joaquim – É significativo, mas é na rede pública que o médico tem estabilidade e é onde o médico aprende medicina. A rede pública é a grande escola.

 O senhor falou na terceirização da anestesia. E o que o senhor acha da terceirização da saúde?

 Dr. Joaquim – Sou contra. Eu acredito no modelo público de saúde e acho que ele pode ser melhorado. Não tenho nada contra as Organizações Sociais, mas se derem aos hospitais públicos as mesmas condições, ele funciona ainda melhor do que as organizações sociais. Então, é importante investir na rede pública. Valorizar o profissional da saúde pública.

 O senhor já convenceu o governo disso? O atual governo tem a terceirização como política de saúde?

 Dr. Joaquim – Convencê-lo não. Mas espero que o próximo secretário seja médico, seja técnico como eu, não político, e que tenha pelo menos três anos para valorizar e fortalecer a saúde pública. É preciso que coloquemos de novo o SUS nos trilhos.

 E antes do senhor sair, o que pretende fazer?

 Dr. Joaquim – Me considero feliz se conseguir reverter esse fluxo errado de que preconiza o SUS, de fortalecer a atenção primária à saúde. Também quero dar prosseguimento às casas terapêuticas para o tratamento de doentes com transtornos mentais.

 E o Hospital de Santa Maria que foi terceirizado por uma Organização denunciada na Bahia por desvio de verbas?

 Dr. Joaquim – Eu não sei porque essa organização foi escolhida. Eu chamaria outra de credibilidade.

 O senhor tomou conhecimento de cobrança de propinas nos contratos da SES em gestão anteriores a sua?

 Dr. Joaquim – Não oficialmente. Estamos fazendo um levantamento para verificar as denúncias, mas não conseguimos localizar nada aqui dentro. Sem dúvida, muita coisa causa estranheza.

 E as ambulâncias continuarão sendo terceirizadas?

 Dr. Joaquim – Pedi um estudo para comparar os preços. Se ficar comprovado que alugar é mais barato que comprar, vou manter os contratos com a Toesa.

 O que o senhor acha da ocupação de cargos privativos de médicos, como chefes de equipe e centros de saúde, por profissionais não médicos?

 Dr. Joaquim – Sou contra. Eu desconheço e não assinei nada. Se isso está acontecendo, que denunciem. Eu pretendo em breve visitar os hospitais e conhecer esse problema. Se eu souber de um desses casos, vou tomar providências.

 

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